O nosso olhar é moldado pelas nossas experiências. Eu acredito que todas as pessoas que vivem no Brasil têm algo a falar sobre a pobreza e a desigualdade que assola a nossa sociedade. Eu sou só mais uma pessoa contando como isso afetou a minha vida e a minha visão do mundo.

Sou de Niterói, cidade que fica há uns 20 minutos do Rio de Janeiro. Quem mora no Rio já está costumado a conviver com a pobreza, não importa a classe social da pessoa, pois há morros com favelas por toda a parte, há mais de 700 favelas na região metropolitana da cidade.
Passei boa parte da minha infância em uma região chamada Maria Paula, fica na divisa com a cidade de São Gonçalo. Na década de 80, Maria Paula era um bairro pobre e mais distante da região central de Niterói. Lá, eu convivi com pessoas bem mais pobres do que eu, meus amigos da rua, o pessoal que jogava bola, brincava de queimado e esconde-esconde eram quase todos de uma favela que ficava a menos de 1 km da minha casa. Eu, com uns 7 anos de idade, já podia observar que gente que vivia em casa sem banheiro do lado de dentro, casa de 1 quarto que moravam mais de 10 pessoas, casa feita de tábua e tijolo, sem acabamento. Além de perceber isso, eu também via como todo mundo achava aquilo normal, tanto os meus pais quanto as próprias pessoas que viviam na favela. A preocupação dos adultos da minha família, por exemplo, era se a favela era tranquila ou se tinha tráfico – nessa época o poder paralelo ainda não tinha tomado todos os espaços. Uma coisa que me chamava a atenção era como os meus amigos gostavam tanto de ovo (não tinha muita carne na casa deles). Apesar de compreender que aquilo era uma aberração entre o que eu tinha de acesso e esses amigos tinham, eu também fui levado a acreditar que a vida era essa e que cada um que siga com o que tem para viver (ou sobreviver).
Alguns anos depois, nos mudamos para um bairro “melhor” - pois a região de Maria Paula começou a ficar perigosa – segui a minha vida como um garoto de classe média que estudou em boas escolas, fez faculdade pública e foi trabalhar com o que escolheu. Porém, mesmo tendo seguido um caminho longe daquele lugar, eu nunca me esqueci das pessoas, das casas, dos cheiros, de como se vivia naquela “favelinha” de Maria Paula. Essa experiência foi e é, até hoje, parte da minha vida e de como construí a minha visão do mundo.
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